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A partir do Nordeste do Brasil, sua pintura alcançou todo o País e o mundo. Universalizou a alegria do rural e do urbano com a mesma criatividade, emoção e colorido captadas por ele nas espontâneas crenças e manifestações culturais de nossa gente.

Ricardo Viveiros

 

 

Luiz Gonzaga Cardoso Ayres nasceu com emoção e criatividade à flor da mente, um curioso olhar além dos limites do horizonte determinados pelas fronteiras da pequena cidade de Rio Formoso, região da mata meridional de Pernambuco, onde foi criado. Veio ao mundo em 1910, no Recife, capital do estado, filho de um usineiro de açúcar nos velhos tempos dos “coroneis”.

Natural imaginar ter sido dura a sua luta para ser artista. Não foi. O pai, João Cardoso Ayres, era um homem culto. Soube incentivar a vocação do filho que, desde os 11 anos, começou a desenhar as paisagens rurais e os trabalhadores da Usina Cucaú, pertencente à família. Além das festas populares, sempre ricas em movimentos, formas e cores.

 

 

O INÍCIO

 

Em 1922, o menino vai para a Capital estudar com o pintor alemão Heinrich Moser, introdutor da técnica dos vitrais artísticos no Brasil. Fica dois anos aprendendo e trabalhando com o mestre. Em 1925, Lula Cardoso Ayres, como ficaria conhecido, segue para a Europa em busca de novos conteúdos para ampliar e qualificar seu trabalho.

         Na França, além de conviver com a vanguarda da arte, estuda com o escritor e pintor Maurice Denis, um dos líderes do Movimento Simbolista e do “Les Nabis” (inspirado em Paul Gauguin). O trabalho de Denis, notadamente o literário, foi decisivo para a criação e perenidade das escolas cubista, fauvista e abstrata observadas na obra de Lula.

Depois de um ano, o artista regressa ao Brasil e vai para o Rio de Janeiro. Tem aulas de pintura na Escola Nacional de Belas-Artes. Seu professor, Rodolfo Amoedo, incentivava os alunos para os mais diferentes processos, como aquarela, encáustica, têmpera; e, ainda, encorajava-os a não ficar apenas nas telas, criando cenários, murais, ilustrações  etc.

 

 

O MEIO

 

Na ENBA, Lula conheceu Rodolpo Chambelland e Candido Portinari, tornando-se aluno do primeiro e amigo do segundo. Depois dos primeiros anos de aprendizado e alguma prática, já havia descoberto a arte, sabendo diferenciar o decorativo. Mas, sem preconceitos. Colocando qualidade e emoção em sua obra, que traz os volumes das peças de barro dos artesãos, passa pelos traços extraídos do fantástico na religiosidade popular e alcança as cores fortes da vida nordestina em delicada explosão surrealista.

Com um ótimo atelier no elegante bairro carioca das Laranjeiras, de causar inveja ao movimento artístico da época, Lula criou modernos cenários para peças de teatro e shows musicais, ousadia elogiada pelos críticos. Era o tempo de sucesso do ator Procópio Ferreira, dos cantores Noel Rosa, Custódio Mesquita e, até mesmo, de promissores iniciantes como Aloysio de Oliveira e Vinicius de Moraes.

Os editores Álvaro Moreyra e J. Carlos, da revista de variedades “Paratodos” (do Partido Comunista Brasileiro), se interessaram pelo trabalho de Lula que foi convidado para ser ilustrador. Nos anos 1920, a “Paratodos” fazia muito sucesso com suas ferinas críticas políticas e sociais. Jorge Amado e Oscar Niemeyer também foram colaboradores e editores da publicação.

 

O SEMPRE

 

         Diante de problemas na administração da usina da família, no início da década de 1930 Lula retorna a Pernambuco para ajudar o pai. No campo, já casado com Lourdes, grande amor da vida inteira, Lula aproveita o tempo de folga para fotografar e estudar a vida dos trabalhadores rurais. A fotografia, inicialmente para simples referência, acabou sendo outra via de expressão do artista.

Com o tempo, seu pai montou-lhe um atelier. Desse momento em diante, acontece concreta evolução na obra de Lula. Em meados dos anos 1940, com a venda da usina da família, ele se transfere para Recife. Seu trabalho sobre as festas regionais populares cresce em importância, com exposições e paineis realizados em espaços públicos. Também ilustra vários livros de renomados autores, como Manuel Bandeira e Gilberto Freyre. Cria cenários carnavalescos para clubes e prefeitura. Leciona na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Pernambuco, por 25 anos.

Lula participou de várias Bienais paulistas, aplaudido pela crítica. As mostras individuais e coletivas do artista foram constantes em vários estados brasileiros e no Exterior (América do Norte e Europa), até a sua morte em 1987. O Instituto Cultural Lula Cardoso Ayres, em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, tem o mais importante e amplo acervo da obra do artista, desde desenhos, fotografias, pinturas e ilustrações à programação visual registrando cenografias, decorações e murais.

 

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Ricardo Viveiros para Revista Abigraf, em setembro de 2011.