
Exposições em espaços públicos de Vitória (ES)
Mestres Espanhóis, no espaço cultural Palácio Anchieta
Inaugurada no início de agosto e aberta ao público até 02 de outubro de 2011, a mostra Mestres espanhóis,apresenta um expressivo conjunto de gravuras, totalizando noventa e oito obras sobre papel, de autoria de Francisco Goya (1746-1828), Pablo Picasso (1881-1973), Joan Miró (1893-1983) e Salvador Dalí (1904-1989). Embora esses artistas tenham desenvolvido projetos diferenciados entre si, contemplando outros processos: escultura, pintura, cerâmica, teatro, e até o cinema, como foi o caso de Dalí, a mostra centra-se na obra gráfica desses espanhóis. À primeira vista pode parecer estranha propor um diálogo entre imagens, temas e processos gráficos diferenciados e criados por artistas tão singulares, que atuaram em diferentes tempos históricos e se destacaram como protagonistas de tendências artísticas e gramáticas poéticas diversas. Mas se analisadas atentamente desvela-se nesse conjunto de obras, maneiras particulares dos autores dialogarem com ícones da literatura local e mundial, quanto com aspectos peculiares à cultura do país natal.
As dezoito gravuras em metal (água-tinta) de autoria de Goya, em exibição, integram a série Los Provérbios, elaborada entre 1815 e 1824. Permaneceu incompleta em virtude da morte do artista, sendo editada postumamente (1864), pela Academia de Belas Artes de Madrid, cabendo à instituição a tarefa de efetuar mais tarde novas tiragens e edições. Com um traçado minucioso e exímios efeitos de luz e sombra, Goya engendrou nessas obras gráficas cenas dramáticas ou burlescas, por meio das quais corporificou sonhos, angústias, aspirações, medos pessoais e coletivos.
Picasso é o artista que apresenta na exposição maior número de gravuras, integrantes, predominantemente, de duas séries de estampas. A primeira delas, Tauromaquia, foi iniciada em 1957 e gravada em água-tinta de açúcar, sendo concluída e editada em Paris dois anos depois. Foi inspirada num clássico da literatura espanhola, que discorre sobre a tradição cultural das touradas, de autoria de José Delgrado, publicado no final do século XVIII. Com grande fluência das formas e economia de traços e linhas, o artista elaborou composições que permitem estabelecer relações espaço/temporais de grande efeito e luminosidade, nas quais contrapõe ícones pretos, elaborados de maneira rápida e sintética, atestando perfeita sintonia entre a fluência do pensamento e a artesania. Centra esforços na dinâmica de touros, construídos com pinceladas rápidas, em esboços figurais que permitem visualizar até a volumetria dos corpos. A figura do toureiro/prestidigitador/bailarino, é representada a incitar o touro para a luta ou a espetá-lo já dominado e abatido e é esboçada de maneira bem mais esquemática que as dos animais, permitindo alguma analogia com as composições das grutas pré-históricas. Essa iconografia de tons escuros contrapõe-se ao campo branco do papel, sendo que apenas em poucas composições o artista recorre à aguada para acentuar pequenas áreas de sombra A platéia e a arena por sua vez, são apenas sugeridas por traços mais ou menos longos, e pontilhados, permitindo gerar a ilusão de profundidade, efeito que se completa com as figuras situadas na parte inferior do papel, formas essas ampliadas e que se completam fora no campo visual.
Além de algumas obras soltas, que mostram cenas de bacanais, integram a participação de Picasso na exposição outras doze gravuras em metal (água forte e água tinta) da série Le Cocu Magnifique (O magnífico corno, editada em 1968), imagens que embora remetam à paranóia de uma suposta traição do homem pela mulher, revelam uma faceta mais freqüente na obra gráfica de artista, ao enredarem sensualidade e volúpia e referências à mitologia.
A série foi inspirada na comédia burlesca em três atos de mesmo título, de autoria de Fernand Crommelynck, encenada no Teatro de La Maison de l´Oeuvre, em Paris (1929), peça que o artista teria assistido. Picasso manifestou também apreço pela obra literária desse mesmo autor. Agora, as imagens ganham dimensões maiores, ocupando todo o campo do papel, e o artista atribui aos corpos femininos atributos visuais e posições que reforçam uma conotação erótica. Construídos com traçados arredondados, ganham maior desenvoltura que as figuras masculinas. Estas aparecem ridicularizadas, a exemplo do personagem Bruno (o chifrudo), personificado na figura do Minotauro, ou seres inanimados, em virtude dos contornos rigorosos ou incisivos.
Salvador Dalí exibe na mostra vinte e uma gravuras em metal (ponta seca), elaboradas para a ilustração da tradução francesa do Fausto (Faust), de Goethe, por Gerard Nerval, e editada em 1969, obra que versa sobre um personagem lendário que faz um pacto com o diabo, em troca da sabedoria e da juventude, mas que acaba sendo salvo por Deus. A maioria das figuras é esquematizada, em composições ora de traçados angulosos, ora enovelados, pondo em destaque o personagem Fausto, representado de maneira esquemática e alongada. Outras revelam associações de imagens e signos gráficos explosivos e paradoxais, para remeter aos sonhos e ao imaginário, bem ao gosto do surrealismo, movimento que contou com a adesão desse polêmico artista espanhol em 1929, e do qual ele jamais se afastaria.
Miró é o único que apresenta vinte litografias em cores, da série editada em 1975, elaborada por ele para ilustração da obra de autoria do poeta surrealista espanhol Rafael Alberti, Las Maravillas con Variaciones Acrósticas en el Jardín de Miró. As composições são esboçadas com signos caligráficos abstratos e arcabouços figurais demarcados por traços negros. Revelam tal espontaneidade e imaginação que permite aproximá-las das garatujas infantis. O autor associa a esses códigos pequenos círculos e estruturas reveladoras de uma geometria sem rigor, ou orgânica. O colorido é vibrante, com predomínio das cores primárias, e se potencializa em contraste com a brancura luminosa do papel.
As obras apresentadas na mostra pertencem a colecionadores europeus e foram reunidas e organizadas pela Art Camù. Constituem oportunidade rara para o público apreciar e dialogar de maneira intimista com este conjunto excepcional de obras gráficas, recriando e acompanhando passo a passo a fluência da linha e da forma amoldando-se pela mão do artista sobre a superfície da chapa de metal ou da pedra litográfica.
O Louvre e seus Visitantes
No Museu de Arte do Espírito Santo, também na capital do Estado, encontram-se expostas mais de oitenta fotografias, de autoria do fotógrafo e poeta carioca Alécio de Andrade, pertencentes ao acervo do Instituto Moreira Salles. Revelam como a objetiva do fotógrafo captou, ao longo de quase quadro décadas, período em que ele viveu e trabalhou na capital francesa. (1965-2002), cenas inusitadas de visitantes de todas as faixas etárias hipnotizados, revelando curiosidade ou fadiga diante de alguns ícones da pintura histórica, no interior do Museu do Louvre em Paris.
Esse inusitado conjunto de imagens permite situar o seu autor como um observador atento, perspicaz e sensível, e poderá ser visto até 13 de novembro de 2011.
Almerinda Lopes