Exposições

 

De artista também. Por isso, procedem os comentários que se tem recebido nesta coluna e, pessoalmente, sobre a importância de abordar aqui aspectos da criatividade popular seja  no carnaval seja  nas práticas de rua, seja no vestuário ou outros tipos de vivências estéticas.

Para essa abordagem, retoma-se a ideia de que Arte é uma prática social reconhecida em nossa sociedade através de um sistema de relações que envolve atores (críticos, artistas, professores, marchands etc.) e instituições (museus, galerias, universidades, bienais, etc.). Assim como cuidar da saúde não faz de alguém um médico, nem ter suas excentricidades classificam indivíduos como loucos, e também exercitar em alguma atividade prática a potência criativa estética de cada um não os habilita como artista, nem o que fazem como arte. Com isso se estaria dizendo que o que fazem ou eles em si estão aquém do artístico? Não. Simplesmente não se pode negar ou omitir que existe esta categoria social aceita e legitimada como arte e, para participar dela existe uma série de condicionantes não tanto qualitativos mais sim institucionais.

Um bom exemplo para essa análise são dois trabalhos assim descritos: primeiro, em uma sala ampla, percebe-se na semi obscuridade um conjunto de pequenas camas hospitalares, mais precisamente berços metálicos com seus travesseiros, recobertos de plásticos transparentes. Cinzas e frios, em sua sequência, eles instauram um “território do nada”, no qual realidade e imaginação duelam, e em cujo vazio a presença da morte se coloca em evidência. Segundo, em outra sala, uma única cama de madeira, também hospitalar, velha e recoberta de tecidos que formam um dossel, onde se destacam inúmeros bordados feitos à mão, com cordões coloridos que completam a “decoração”. Também ela está vazia, mas seu aspecto dominante é a ambiguidade, misto de realidade e pobreza com cores e fantasia. Em ambos os casos, um sentimento de estranhamento se instala de forma bastante evidente. Nada parece ser o que se mostra à primeira vista.

FOTOS

            Essas “camas” pertencem, respectivamente, a Christian Boltanski (1944) e a Arthur Bispo do Rosário (1909-1989). As primeiras fazem parte de uma instalação apresentada pelo artista francês, no Museu de Arte Moderna de Paris, em 1999. A segunda pertenceu a um brasileiro, semi-alfabetizado, ex-marinheiro, interno em clínicas psiquiátricas, que realizou uma obra totalmente à margem do mundo da arte, mas que, atualmente, se encontra, juntamente com todos os seus “objetos”, em uma coleção. Parte dela foi apresentada na Bienal de Veneza, em 1999 e na Mostra do Redescobrimento, em São Paulo, em 2000. As primeiras buscam refazer o clima de instituições hospitalares, tornando evidente a morte que ali se encontra. Elas remetem também, como quase toda a obra do artista francês, para os horrores do holocausto imposto pelo nazismo. A segunda representava para seu autor um meio de acesso ao céu, quando de sua morte, sua nave de translado, seu abrigo e proteção.

Entretanto, nem as distâncias geográfica, cultural, social e econômica, nem as diferenças formais conseguem omitir uma paradoxal proximidade entre elas. Proximidade que parece encontrar-se no “sentido” que essas imagens instauram, na carga simbólica que delas emana. São obras que abordam a realidade das coisas, mais além de seu significado imediato, que expõem a face escura do mundo, aquela que inquieta e desafia os homens, mas que a vida cotidiana teima em ocultar. Face escura que, recalcada, volta à superfície para afirmar a incapacidade de tudo conhecer, a impossibilidade do saber total. Que se coloca como um movimento em direção ao desconhecido, sempre em busca de novas dúvidas, para ir mais além.

Os trabalhos de Boltansky e Bispo, apesar de suas origens diversas, foram assumidos dentro deste difuso campo denominado Arte Contemporânea. Em ambos os casos, tem-se realizações que oferecem ao espectador não apenas uma imagem ótica, trata-se de visualidades que fogem das categorias artísticas tradicionais: da pintura, da escultura, da gravura ou do desenho. Com isso confirma-se que uma prática simbólica não necessita, necessariamente, ser criada como arte, inserida no sistema de relações artísticas, mas ela pode ser conduzida a ele por vários mecanismos. No caso da obra de Arthur Bispo do Rosário, por exemplo, a atuação do crítico Frederico de Moraes foi fundamental nessa incorporação institucional. Essa inserção faz de Bispo um artista e de seu trabalho obra de arte.

  Jacques Rancière fala que a eficácia da arte advém do estabelecimento de uma situação específica, em que a intenção de um artista se manifesta em uma forma sensível, em um lugar de arte, sob o olhar de um espectador em um estado da comunidade intelectual. Essa situação específica é uma construção da modernidade - a famosa “autonomia da arte” - que outorga uma identidade a esse campo das práticas estéticas. Autonomia que liberou o valor das artes visuais de uma dependência representacional religiosa ou política, deixando-a, em muitos casos, dependente de valores mercadológicos.  Isso, no entanto, não deve afastar as pessoas do universo da arte em si, pelo contrário. A vivência do estético pode tornar os indivíduos mais humanos, pois, afinal, é a capacidade de simbolizar que caracteriza esta espécie.

Mas por que o desejo de ser artista, ou de ver artistas fora do sistema da arte? A que contribui essa diluição dos contornos e limites do campo artístico?

Apropriar-se criticamente do mundo da arte, individual e coletivamente  faz parte da partilha do sensível, na linha que defende Rancière como caminho para uma sociedade mais pluralista e participativa. Entretanto, como sugere Nestor Garcia Canclini “Os artistas contribuem a modificar o mapa do perceptível e do pensável... a arte está apta, mais que para ações diretas, para sugerir a potência do que está suspenso”[i]. Assim, o objetivo não  precisa ser o de encontrar a arte fora da “arte”, mas sim aproximar-se da arte para pensar criticamente o mundo. Viver e fazer arte não é buscar o belo e formas apaziguadoras da instabilidade de ser humano, mas sim deixar-se preencher desse vazio existencial e perceber nele a beleza da imperfeição. Viver a experiência estética de forma mais radical aponta para o “dissenso”, que aceita a convivência de diferentes regimes estéticos. Como afirma Canclini, defendendo uma estética da iminência: “Os artistas, os curadores, os críticos e os públicos, podemos ser comunidades ou redes gozadoras do que se anuncia”.

 

 


[i] La sociedad sin relato-Antropologia y estética de La iminência. Katz, Buenos Aires, 2011

 

 

 


A partir do Nordeste do Brasil, sua pintura alcançou todo o País e o mundo. Universalizou a alegria do rural e do urbano com a mesma criatividade, emoção e colorido captadas por ele nas espontâneas crenças e manifestações culturais de nossa gente.

Ricardo Viveiros

 

 

Luiz Gonzaga Cardoso Ayres nasceu com emoção e criatividade à flor da mente, um curioso olhar além dos limites do horizonte determinados pelas fronteiras da pequena cidade de Rio Formoso, região da mata meridional de Pernambuco, onde foi criado. Veio ao mundo em 1910, no Recife, capital do estado, filho de um usineiro de açúcar nos velhos tempos dos “coroneis”.

Natural imaginar ter sido dura a sua luta para ser artista. Não foi. O pai, João Cardoso Ayres, era um homem culto. Soube incentivar a vocação do filho que, desde os 11 anos, começou a desenhar as paisagens rurais e os trabalhadores da Usina Cucaú, pertencente à família. Além das festas populares, sempre ricas em movimentos, formas e cores.

 

 

O INÍCIO

 

Em 1922, o menino vai para a Capital estudar com o pintor alemão Heinrich Moser, introdutor da técnica dos vitrais artísticos no Brasil. Fica dois anos aprendendo e trabalhando com o mestre. Em 1925, Lula Cardoso Ayres, como ficaria conhecido, segue para a Europa em busca de novos conteúdos para ampliar e qualificar seu trabalho.

         Na França, além de conviver com a vanguarda da arte, estuda com o escritor e pintor Maurice Denis, um dos líderes do Movimento Simbolista e do “Les Nabis” (inspirado em Paul Gauguin). O trabalho de Denis, notadamente o literário, foi decisivo para a criação e perenidade das escolas cubista, fauvista e abstrata observadas na obra de Lula.

Depois de um ano, o artista regressa ao Brasil e vai para o Rio de Janeiro. Tem aulas de pintura na Escola Nacional de Belas-Artes. Seu professor, Rodolfo Amoedo, incentivava os alunos para os mais diferentes processos, como aquarela, encáustica, têmpera; e, ainda, encorajava-os a não ficar apenas nas telas, criando cenários, murais, ilustrações  etc.

 

 

O MEIO

 

Na ENBA, Lula conheceu Rodolpo Chambelland e Candido Portinari, tornando-se aluno do primeiro e amigo do segundo. Depois dos primeiros anos de aprendizado e alguma prática, já havia descoberto a arte, sabendo diferenciar o decorativo. Mas, sem preconceitos. Colocando qualidade e emoção em sua obra, que traz os volumes das peças de barro dos artesãos, passa pelos traços extraídos do fantástico na religiosidade popular e alcança as cores fortes da vida nordestina em delicada explosão surrealista.

Com um ótimo atelier no elegante bairro carioca das Laranjeiras, de causar inveja ao movimento artístico da época, Lula criou modernos cenários para peças de teatro e shows musicais, ousadia elogiada pelos críticos. Era o tempo de sucesso do ator Procópio Ferreira, dos cantores Noel Rosa, Custódio Mesquita e, até mesmo, de promissores iniciantes como Aloysio de Oliveira e Vinicius de Moraes.

Os editores Álvaro Moreyra e J. Carlos, da revista de variedades “Paratodos” (do Partido Comunista Brasileiro), se interessaram pelo trabalho de Lula que foi convidado para ser ilustrador. Nos anos 1920, a “Paratodos” fazia muito sucesso com suas ferinas críticas políticas e sociais. Jorge Amado e Oscar Niemeyer também foram colaboradores e editores da publicação.

 

O SEMPRE

 

         Diante de problemas na administração da usina da família, no início da década de 1930 Lula retorna a Pernambuco para ajudar o pai. No campo, já casado com Lourdes, grande amor da vida inteira, Lula aproveita o tempo de folga para fotografar e estudar a vida dos trabalhadores rurais. A fotografia, inicialmente para simples referência, acabou sendo outra via de expressão do artista.

Com o tempo, seu pai montou-lhe um atelier. Desse momento em diante, acontece concreta evolução na obra de Lula. Em meados dos anos 1940, com a venda da usina da família, ele se transfere para Recife. Seu trabalho sobre as festas regionais populares cresce em importância, com exposições e paineis realizados em espaços públicos. Também ilustra vários livros de renomados autores, como Manuel Bandeira e Gilberto Freyre. Cria cenários carnavalescos para clubes e prefeitura. Leciona na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Pernambuco, por 25 anos.

Lula participou de várias Bienais paulistas, aplaudido pela crítica. As mostras individuais e coletivas do artista foram constantes em vários estados brasileiros e no Exterior (América do Norte e Europa), até a sua morte em 1987. O Instituto Cultural Lula Cardoso Ayres, em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, tem o mais importante e amplo acervo da obra do artista, desde desenhos, fotografias, pinturas e ilustrações à programação visual registrando cenografias, decorações e murais.

 

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­

Ricardo Viveiros para Revista Abigraf, em setembro de 2011.

Sem preconceitos e seguro do que almejava, o artista optou pelo Sul, pelas imagens gaúchas, pelo ensino de jovens pintores e a criação de museus. Não fez concessões, mas, a si mesmo, concedeu o direito de ser feliz. De viver com arte.

RICARDO VIVEIROS (ABCA)

 

 

Pouco se conhece da sua origem simples e oriunda da imigração italiana para o Brasil. Ado Malagoli nasceu no dia 28 de abril de 1906, em Araraquara, São Paulo. Cidade que também deu ao Brasil e ao mundo outros nomes da cultura: o produtor de cinema Herbert Richers; o gravador Lívio Abramo; a antropóloga Ruth Cardoso; o escritor Ignacio de Loyola Brandão; e o diretor teatral José (Zé) Celso Martinez Corrêa.

 

A BUSCA DO MUNDO

Aos oito anos, órfão de pai e mãe, Malagoli deixou a sua “Morada do Sol” rumo a Capital do estado, onde foi viver com parentes. Como sempre soube o que desejava ser na vida, aos 16 anos diplomou-se em “Artes Decorativas” pela Escola Profissional Masculina, no bairro proletário do Brás. Hoje Escola Técnica Estadual Getúlio Vargas, esse educandário desempenhou relevante papel na formação de vários artistas plásticos que se tornariam famosos.

Destinada à formação de mão-de-obra especializada para a indústria e o comércio, seus cursos de desenho receberam nomes como: Volpi, Bonadei, Zanini e Rebolo (com quem Malagoli pintou paineis). Era ensino profissionalizante, noturno, para pessoas de baixa renda. Em especial, imigrantes que chegavam para “fazer a América”, mesmo que ao sul do Equador...

Nos anos seguintes, de 1922 a 1928, Malagoli seguiu o mesmo caminho que os demais formados pela EPM: o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. Lá, sob a orientação dos professores italianos, Giuseppe Barchita e Enrico Vio (que o proibia de apagar erros, porque era vergonhoso), estudou e trabalhou ao lado de Rebolo, Volpi e Zanini, alguns dos quais integrariam, um pouco mais tarde, o emblemático Grupo Santa Helena.

Aos 22 anos, Malagoli vai para o Rio de Janeiro onde ingressa na respeitada Escola Nacional de Belas Artes. Cinco anos depois, ingressa no Núcleo Bernadelli, movimento em busca da liberdade de expressão. Aos 30 anos de idade forma-se pela ENBA. Sua pintura, desde sempre, foi comprometida com os temas do cotidiano; seus primeiros quadros trazem o rosto da gente sofrida e alegre das favelas cariocas, em irônica mescla sociológica. Em 1935, Malagoli recebe “Menção Honrosa” no Salão Nacional.

 

O MUNDO OFERECIDO

Mas, foi aos 36 anos, com a tela “Por quê?”, o primeiro momento marcante da sua carreira. Malagoli conquista o “Prêmio de Viagem ao Estrangeiro”, no mesmo disputado salão. Entre 1943 e 1946 o artista vive nos Estados Unidos (Los Angeles, Chicago e Nova York), estuda nas Universidades de Nova York e Columbia, interage com os brasileiros Edson Motta e Djanira. No último ano de sua permanência nos EUA, a Galeria Careen Gems, em NY, realiza uma exposição individual do pintor. Todas as obras são vendidas, e uma delas adquirida pelo político e mecenas Nelson Rockefeller.

De volta ao Brasil, Malagoli expõe aqui, na Argentina e na França (“Salão de Outono”). Em 1948 casa-se com Ruth, amor de toda a vida. Participa da I Bienal de São Paulo, em 1951. Monta ateliê no Rio de Janeiro, e frequenta as rodas de artistas da cidade. Era um boêmio e aventureiro “saudável”, como definia sua mulher. Tanto que se meteu na construção de uma estrada de rodagem em região inóspita. Com as mãos arrebentadas pela picareta, desistiu e voltou para casa. Mas, claro, com muitas e ricas imagens na memória...

Em 1952, com uma carreira promissora, Malagoli opta por viver em Porto Alegre. Sua atitude surpreende colegas e críticos, mas, seu coração e sua mente estavam seguros da escolha. Aceita convite oficial do governo do estado do Rio Grande do Sul e assume a cadeira de Pintura da Escola de Belas Artes. Em 1957, no cargo de diretor da Divisão de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura do estado, cria o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS).

 

O MUNDO ESCOLHIDO

Fruto de incontestável vocação, aluno de grandes mestres, possuidor de técnica apurada, capaz de olhar o mundo além do aparente, com absoluto domínio das matérias primas e do instrumental da pintura, compromisso com a inovação permanente, Malagoli realizou uma verdadeira revolução no ensino das artes plásticas. Soube, respeitando o estilo acadêmico em seus fundamentos, instigar seus alunos para o moderno. A rigor, antecipava o futuro.

Com uma visão além de seu tempo, despertou a crítica negativa de colegas, pais e, até mesmo, de alunos mais ortodoxos. Muitas vezes, ouviu que em suas aulas se “desaprendia pintura”. Foi o primeiro a introduzir debates entre os alunos, com cada um criticando o trabalho do outro e, assim, juntos crescendo na pintura e na vida. “Eu não posso ficar corrigindo quadrinhos”, dizia. E ensinava a criar sem limites, pesquisar e descobrir, transcender como cabe na verdadeira arte.

Nos anos 1960, Malagoli pintou os primeiros “casarios”, expôs e recebeu prêmios no Brasil, voltou a viajar para a Europa. Mais tarde, em meados de 1980, aposentado das funções públicas, retoma pinturas com temas religiosos, sob certo lirismo, e experimenta algumas abstrações. Sua obra demonstra uma perfeita integração entre técnica e emoção, os temas são tratados com ampla visão da vida e trazem toques que vão do romantismo ao realismo, mas, sempre, com profundo respeito e amor. Há em suas telas a nítida determinação em mostrar que viver é difícil, mas, vale a pena.

Ado Malagoli morreu em 4 de março de 1994, em Porto Alegre (RS). Dois anos antes, o museu que fundou passou a ter seu nome: “MARGS – Ado Malagoli”. Diz o respeitado crítico de arte e escritor, Jacob Klintowitz: “Eu o conheci bem e era impossível não gostar dele. Homem moderado, delicado, afável. Sua pintura tinha uma pátina de amor invisível”.

 

­­

Ricardo Viveiros (ABCA), para a Revista Abigraf, em 28/10/2011.

Exposições em espaços públicos de Vitória (ES)

Mestres Espanhóis, no espaço cultural Palácio Anchieta

 

            Inaugurada no início de agosto e aberta ao público até 02 de outubro de 2011, a mostra Mestres espanhóis,apresenta um expressivo conjunto de gravuras, totalizando noventa e oito obras sobre papel, de autoria de Francisco Goya (1746-1828), Pablo Picasso (1881-1973), Joan Miró (1893-1983) e Salvador Dalí (1904-1989). Embora esses artistas tenham desenvolvido projetos diferenciados entre si, contemplando outros processos: escultura, pintura, cerâmica, teatro, e até o cinema, como foi o caso de Dalí, a mostra centra-se na obra gráfica desses espanhóis. À primeira vista pode parecer estranha propor um diálogo entre imagens, temas e processos gráficos diferenciados e criados por artistas tão singulares, que atuaram em diferentes tempos históricos e se destacaram como protagonistas de tendências artísticas e gramáticas poéticas diversas. Mas se analisadas atentamente desvela-se nesse conjunto de obras, maneiras particulares dos autores dialogarem com ícones da literatura local e mundial, quanto com aspectos peculiares à cultura do país natal.

            As dezoito gravuras em metal (água-tinta) de autoria de Goya, em exibição, integram a série Los Provérbios, elaborada entre 1815 e 1824. Permaneceu incompleta em virtude da morte do artista, sendo editada postumamente (1864), pela Academia de Belas Artes de Madrid, cabendo à instituição a tarefa de efetuar mais tarde novas tiragens e edições. Com um traçado minucioso e exímios efeitos de luz e sombra, Goya engendrou nessas obras gráficas cenas dramáticas ou burlescas, por meio das quais corporificou sonhos, angústias, aspirações, medos pessoais e coletivos.

            Picasso é o artista que apresenta na exposição maior número de gravuras, integrantes, predominantemente, de duas séries de estampas. A primeira delas, Tauromaquia, foi iniciada em 1957 e gravada em água-tinta de açúcar, sendo concluída e editada em Paris dois anos depois. Foi inspirada num clássico da literatura espanhola, que discorre sobre a tradição cultural das touradas, de autoria de José Delgrado, publicado no final do século XVIII. Com grande fluência das formas e economia de traços e linhas, o artista elaborou composições que permitem estabelecer relações espaço/temporais de grande efeito e luminosidade, nas quais contrapõe ícones pretos, elaborados de maneira rápida e sintética, atestando perfeita sintonia entre a fluência do pensamento e a artesania. Centra esforços na dinâmica de touros, construídos com pinceladas rápidas, em esboços figurais que permitem visualizar até a volumetria dos corpos.  A figura do toureiro/prestidigitador/bailarino, é representada a incitar o touro para a luta ou a espetá-lo já dominado e abatido e é esboçada de maneira bem mais esquemática que as dos animais, permitindo alguma analogia com as composições das grutas pré-históricas. Essa iconografia de tons escuros contrapõe-se ao campo branco do papel, sendo que apenas em poucas composições o artista recorre à aguada para acentuar pequenas áreas de sombra A platéia e a arena por sua vez, são apenas sugeridas por traços mais ou menos longos, e pontilhados, permitindo gerar a ilusão de profundidade, efeito que se completa com as figuras situadas na parte inferior do papel, formas essas ampliadas e que se completam fora no campo visual.

            Além de algumas obras soltas, que mostram cenas de bacanais, integram a participação de Picasso na exposição outras doze gravuras em metal (água forte e água tinta) da série Le Cocu Magnifique (O magnífico corno, editada em 1968), imagens que embora remetam à paranóia de uma suposta traição do homem pela mulher, revelam uma faceta mais freqüente na obra gráfica de artista, ao enredarem sensualidade e volúpia e referências à mitologia.

A série foi inspirada na comédia burlesca em três atos de mesmo título, de autoria de Fernand Crommelynck, encenada no Teatro de La Maison de l´Oeuvre, em Paris (1929), peça que o artista teria assistido. Picasso manifestou também apreço pela obra literária desse mesmo autor. Agora, as imagens ganham dimensões maiores, ocupando todo o campo do papel, e o artista atribui aos corpos femininos atributos visuais e posições que reforçam uma conotação erótica. Construídos com traçados arredondados, ganham maior desenvoltura que as figuras masculinas. Estas aparecem ridicularizadas, a exemplo do personagem Bruno (o chifrudo), personificado na figura do Minotauro, ou seres inanimados, em virtude dos contornos rigorosos ou incisivos.

            Salvador Dalí exibe na mostra vinte e uma gravuras em metal (ponta seca), elaboradas para a ilustração da tradução francesa do Fausto (Faust), de Goethe, por Gerard Nerval, e editada em 1969, obra que versa sobre um personagem lendário que faz um pacto com o diabo, em troca da sabedoria e da juventude, mas que acaba sendo salvo por Deus. A maioria das figuras é esquematizada, em composições ora de traçados angulosos, ora enovelados, pondo em destaque o personagem Fausto, representado de maneira esquemática e alongada. Outras revelam associações de imagens e signos gráficos explosivos e paradoxais, para remeter aos sonhos e ao imaginário, bem ao gosto do surrealismo, movimento que contou com a adesão desse polêmico artista espanhol em 1929, e do qual ele jamais se afastaria.

            Miró é o único que apresenta vinte litografias em cores, da série editada em 1975, elaborada por ele para ilustração da obra de autoria do poeta surrealista espanhol Rafael Alberti, Las Maravillas con Variaciones Acrósticas en el Jardín de Miró. As composições são esboçadas com signos caligráficos abstratos e arcabouços figurais demarcados por traços negros. Revelam tal espontaneidade e imaginação que permite aproximá-las das garatujas infantis. O autor associa a esses códigos pequenos círculos e estruturas reveladoras de uma geometria sem rigor, ou orgânica. O colorido é vibrante, com predomínio das cores primárias, e se potencializa em contraste com a brancura luminosa do papel.

            As obras apresentadas na mostra pertencem a colecionadores europeus e foram reunidas e organizadas pela Art Camù. Constituem oportunidade rara para o público apreciar e dialogar de maneira intimista com este conjunto excepcional de obras gráficas, recriando e acompanhando passo a passo a fluência da linha e da forma amoldando-se pela mão do artista sobre a superfície da chapa de metal ou da pedra litográfica.             

 

O Louvre e seus Visitantes

 

            No Museu de Arte do Espírito Santo, também na capital do Estado, encontram-se expostas mais de oitenta fotografias, de autoria do fotógrafo e poeta carioca Alécio de Andrade, pertencentes ao acervo do Instituto Moreira Salles.  Revelam como a objetiva do fotógrafo captou, ao longo de quase quadro décadas, período em que ele viveu e trabalhou na capital francesa. (1965-2002), cenas inusitadas de visitantes de todas as faixas etárias hipnotizados, revelando curiosidade ou fadiga diante de alguns ícones da pintura histórica, no interior do Museu do Louvre em Paris.

Esse inusitado conjunto de imagens permite situar o seu autor como um observador atento, perspicaz e sensível, e poderá ser visto até 13 de novembro de 2011.

                                                                                             

Almerinda Lopes

 

 

Mais Artigos...

Página 1 de 2

Início
Anterior
1